Não saiam a noite —
Veja esta prequela de ” Não saiam a noite”, por sua conta e risco…
Se quiser ver a primeira parte, clique em “Não saiam a noite”
Três meses antes
Abraço minha mãe, matando a saudade depois de meses sem vê-la. Vamos comemorar o ano novo juntos e com a família, e eu sei, sei que ela vai lamentar quando eu voltar pra Goiânia. A questão é que preciso ir para o terceiro período na faculdade de artes.
Ela não é contra minha escolha de carreira, é contra eu sair de Manaus. Mamãe deu a desculpa pra eu estudar sobre a família e ficar mais tempo, mas eu vou estudar de qualquer forma, já que é um dos jeitos que eu quero expressar minha arte.
Dando o contexto eu sou de uma família indígena só que, diferente da minha mãe, não sou ligado à cultura. Ela tinha cestas pela casa características do povo Baniwa e livros principalmente falando sobre o mito nheengatu sobre o céu e a água, a criação do mundo. Eu nunca cheguei perto dessas ligações, as vezes sinto-me estúpido e matando o passado. Posso muito ver o paralelo entre mim e minha família. Acho que tenho um certo pavor da minha própria história.
Agora
27.02.1984
O meu maldito despertador não para de tocar. Apesar de eu poder acordar o horário que eu quiser por conta do feriado de Carnaval, mas não moro sozinho e tenho trabalhos da faculdade para terminar. Divido um apartamento e tarefas domésticas com uma menina. Ela é legal, só que produtiva e com um bom humor irritante, mas gosto dela. Não quero me levantar e não posso ver minha mãe nesse feriado (que só dura hoje a amanhã), pelo menos não preciso ir ao meu emprego provisório. Me arrumo, uma camiseta larga, branca, de botão, ajustada dentro de minha calça vermelha com um cinto, e uma jaqueta jeans. Preciso comprar materiais e terminar meu F-100 (87cm x 45cm) do beija flor. Uma obra de realismo que estou fazendo, mas o óleo está acabando.
Me olho no espelho, magrelo, cabelo pra trás cortado em camadas, longo o suficiente pra chegar no pescoço, e de charme um cavanhaque bem ralo. Ouço a porta do meu quarto se abrindo, e minha amiga ruiva ondulada (com parte do cabelo longo preso em uma Xuxa felpuda no meio da cabeça), pele clara e sardas que chegam aos ombros aparece. Muito bem arrumada pra quem vai ficar em casa (um conjunto de camiseta tomara que caia e saia roxas
— Tu não sabe bater na porta não, Savannah?
— Eu sei, mas você sabe pegar as coisas dos outros com permissão? Essa jaqueta é minha.
Ela disse com um tom de sarcasmo e um sorriso forçado. Saio e nem respondo. Ela estuda moda e se veste melhor do que eu, me empresta muitas peças de roupa. O armário dela é meu já. Me mantenho nessa conversa com a mesma cara indiferente, sou uma pessoa que não se expressa muito (apesar de sentir muito). Ela foi para a sala e começou a assistir algum programa naquela tevê quadrada com botões do lado que a gente tem. O café já tá passado e o chão varrido, não são nem 8 da manhã direito. Savannah está mais malhada do que eu, isso é humilhante. Sei que quando eu voltar ela vai me fazer limpar o banheiro e fazer comida.
. . .
Chegando no shopping e prestes a pagar a tinta óleo,o óleo, canivete e um rolinho. Só preciso ligar pra minha mãe e comprar mais algumas coisas, qual era o disque de Manaus mesmo?… Me perco nesses pensamentos em um bocejo e nem percebo que o caixa passou um produto que não era meu.
— Desculpa, essa compra é minha, cancela pra ele? Por favor? Obrigada. Desculpa senhor… Senhor?
Esse homem chama minha atenção: da minha idade, com postura militar, alto, cabelo preto com fios da frente grisalhos (normal em homens) e olhos âmbar. Eu não vou dar o meu nome fácil assim.
— ja… João. Sem problemas
Ele relaxa a postura e me inspeciona de cima a baixo enquanto eu desviava o olhar. Sei que eu posso estar bonito mas para com isso. Se for para dizer algo de mal gos…
— Você é um artista?
Não respondi de imediato
— Se você estiver procurando por um modelo…
Ele deu um sorriso torto, a minha cara se fechou involuntariamente. O pior é que ele (assim como eu) daria um ótimo modelo.
— Não desenho pessoas
Realmente não desenho pessoas. Pego minhas compras e vou em direção a saída. Na escada rolante é quando eu escuto alguém gritando o nome “João!” Reconheci a voz, era aquele homem. Correu pelos degraus ofegando e disse ainda tomando fôlego:
—Esqueceu seu cartão…
Ele disse me entregando o pedaço de plástico. Eu, que estava olhando-o com uma cara de confusão e desespero ao mesmo tempo, mudei minha expressão para de vergonha pelo ocorrido. Nem me toquei que tínhamos chegado ao fim da escada. Depois de eu ter tropeçado e quase caído no chão, peguei meu cartão e agradeci ao homem de olhos cor de âmbar. Eu, como um bom artista procurando o que pintar, percebi que ele comprou coisas para cuidar de casa (ferro de passar, luvas de lavar louças e por aí vai). Para minha surpresa nós dois precisávamos pegar outra escada rolante para a saída. Infelizmente me senti na obrigação de quebrar o gelo:
— Casa nova? Comprando tantos materiais de vez.
—Para quem não queria dar informações, você fez uma pergunta bem específica, Jandir.
Meu cartão tinha meu nome, fiz um rosto de raiva e vergonha, não por ter mentido meu nome mas por ele ter percebido. O homem, ousado, riu da minha cara.
— Relaxa, não devia ter perguntado a um estranho.
Nós rimos mas paramos no momento que percebemos que a escada rolante não acabava e estava ficando cada vez mais escuro, como se estivéssemos entrando num túnel. No desespero,corri na direção oposta, mas com as escadas descendo e a escuridão, eu apenas caí e bati meu joelho com tudo no chão. Gritei de dor e pude sentir a mão do… Qual o nome dele? Enfim, segurar meu ombro e tentar me ajudar.
Enquanto acalmava minha respiração, notei, no fim daquele breu, luzes chegando mais perto. Chegando lá era exatamente o mesmo shopping, mas na loja de roupas e totalmente vazio. A escuridão atrás de nós sumiu também.
Nós demos alguns passos que fizeram muito eco até sairmos da escada rolante. Eu cortei meu joelho e estava doendo demais além do pânico. O … Esse cara (não sei como) parecia muito mais calmo que eu, mas ainda nervoso. Eu fazia perguntas infinitas que o faziam perder o foco e após dizer para eu ficar quieto por um segundo, ele deixou as compras no chão e me levou até a primeira porta escrito “exit”. Mancando a ansiedade tomou conta de mim quando notamos que a porta dava para o mesmo lugar.
O homem ao meu lado passou a mão no cabelo, nervoso e notou que eu estava tremendo, se virou pra mim e disse preocupado.
—Ah… Você sabe onde fica a farmácia?
NÃO SAIAM A NOITE Continua na parte 4…
Por:
Minna Carneiro
Amante de literatura e RPG ( mais os que valorizam interpretação e fantasia), grande interesse em horror e mistério. Artista em muitas categorias.
Até breve. Ah, e é claro, hora do jabá: vem conhecer a loja on LINE da Nozes! Clica em Nozes Game Studio!
Te convido também a clicar para participar do grupo de ZAP da Editora Nozes.




