Não saiam a noite

Não saiam a noite — parte 5 – Contos da Nozes#5

Não Saiam a noite…

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Três meses antes — parte 5 ….

 

— Não venha tirar satisfação comigo por droga de motivo nenhum, é por minha causa que a gente saiu.

 

Ele me agarrou pela gola da jaqueta e me olhou nos olhos, eu fui estúpido. Ele não esbanjava nenhuma raiva ou coisa do tipo, mas abriu um meio sorriso ao ver meu rosto de medo e arrependimento. Pergunto-me quem gritou com esse menino e quem fez esses hematomas em seu pescoço. Ele também me jogou contra a parede, provavelmente por raiva. Eu, porém, não dei a ele esse direito. Desculpei-me do mesmo jeito. Savannah estava na exata mesma posição, do mesmo jeito. Júlio, entretanto, não pareceu comprar o comportamento dela. Sacou um canivete suíço do bolso, e apontou para a mesma, esperando que ela se desesperasse, achando que ela pararia de “atuar”, pensava que ela estava fingindo, ou só estava agindo feito um louco, passando a lâmina perto de seu pescoço testando como se fosse algo divertido. Logicamente não iria ficar apenas observando essa opressão

 

— O que você pensa que está fazendo?

 

Eu confrontei colocando-me em frente aos dois

 

— Isso tudo parece real para você?

 

— Como?

 

— Isso tudo não tem explicação e é totalmente… Novo.

 

— Isso não lhe dá o direito de ameaçar cortar a garganta de alguém!

 

Júlio aproximou-se o bastante para que eu perdesse o equilíbrio e caísse.

 

— Também não lhe dá o direito de vir pra cima de mim me culpando por nada.

 

Que palhaçada era aquela? Isso que ele fez era culpa dele, mas ele não me perdoou pelo que eu fiz antes. Honestamente, desisti de responder, consegui ficar sem palavras, não perder o argumento. O mais importante, o que faríamos agora? Não podemos tentar sair.Não tem saída. Isso é realmente só um universo que leva as pessoas à morte ou à loucura pouco a pouco? Júlio gemia de dor, mas isso me deu uma ideia. Peguei Savannah e o bombeiro, mas, dessa vez, contei a ele meu plano.

Fomos ao mesmo supermercado de antes, fiz muito barulho chamando a atenção daquele maldito monstro. Quando ele apareceu, não chegou a nos perseguir, mas no momento que joguei uma garrafa de vidro de Coca-Cola nele, o próprio correu em nossa direção. Júlio, então, se jogou contra uma parede de gesso, foi o suficiente para ela quebrar. Funcionou, estávamos de volta ao shopping, mas totalmente atordoados. Havíamos caído contra carrinhos de supermercado e Júlio havia perdido a consciência após ter batido a cabeça em um dos carrinhos e estava sob uma poça de sangue. Estava muito pior do que parecia.

 

Epílogo

 

Acabou que, no final das contas, Savannah precisou ficar em um hospital psiquiátrico tratando o motivo de seu comportamento. Fizz questão de pagar, tive que dar meu jeito para conseguir o dinheiro. Eu e Júlio conseguimos nos livrar das perguntas que os médicos que nos assistiram ,por conta dos machucados, fizeram.

Se contassemos, nos chamariam de loucos. Aqueles hematomas? Júlio estava convivendo com pais que literalmente perseguiam-no, por motivo nenhum. Não confiavam suficiente no filho adulto deles, o chamavam de ingrato por seguir a carreira de bombeiro e sair de casa.

As compras que ele fez eram para os pais. Eu não ia deixá-lo ali, ele morou comigo no apartamento que eu vivia com Savannah. Depois de alguns anos eu terminei a faculdade, começado a vender obras de arte e descobrimos que um parente de Júlio tinha deixado uma herança para ele.

Não tínhamos motivos para continuar em Goiânia.

Meu novo colega de quarto e seu espírito de aventura me convenceram a morar numa mansão que estava caindo aos pedaços, aos poucos íamos recuperando ela. Mantive o quadro do beija-flor, mas foram vendidos, principalmente, os quadros que continham figuras da mitologia do povo Nhengatu.

Uns bons anos após termos nos mudado, notei que toda a confusão com os pais de Júlio quando ele pegou a herança, saiu de casa ou se mudou, além do incidente no shopping, perturbaram a mente dele, mais do que já era.

Era comum ele se defender de coisas absurdas assim como foi na vez que ele apontou um canivete suíço para minha colega de quarto, as vezes ele tem o hábito de fazer eu ficar encurralado, assim como fez no shopping ou até me machucar. Eu sentia pena apesar de tudo, e ele seguia se desculpando. Seria difícil convencer ele a ir num psiquiatra.

O médico mandaria ele para o mesmo hospital de Savannah se ele contasse do shopping. Minha mãe acabou falecendo de um problema intestinal quando completei quarenta anos.

O me incomoda mais é o fato de que eu não esqueci o que houve naquele shopping.

Não importa, eu sempre tenho pesadelos e alucinações. Viver tem se tornado ruim, eu não posso ir a qualquer especialista. O pior é que toda a vez que chego ao meu santuário, meu ateliê de pintura, para pintar alguma coisa, aquela coisa com rosto de pássaro que mais se assemelha a uma harpia me observa de canto. Pela fechadura da janela, pelo canto do quarto, ou no canil dos cães que Júlio quer comprar, fica no quintal e eu posso vê-lo pela vidraça.

Se eu não fechar a janela, essa coisa vai me devorar, eu sei que vai. Ela voa até o vidro e fica batendo nele quando eu decido sair do lugar sem ter pintado nada. Ela me obriga a fazer meu trabalho de janelas fechadas. Fico aqui me intoxicando aos poucos com a minha tinta a óleo. Eu, pelo visto, nunca vou me livrar desse tormento. Eu realmente sinto muito, Júlio, eu não queria te deixar assim, desse jeito, sozinho, sem adeus, assim como minha mãe.

 

Por:

Minna Carneiro

Amante de literatura e RPG ( mais os que valorizam interpretação e fantasia), grande interesse em horror e mistério. Artista em muitas categorias.

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