Não tentem sair a noite
O pesadelo não acabou… Se você quiser ver tudo do início, clica aqui!
Três meses antes — continuação… Parte 4
—Ah… Você sabe onde fica a farmácia?
Me apoiando nele fomos até a farmácia e eu tentei fechar o ferimento da minha perna (que havia encharcado minha calça de sangue de tão fundo com um tom mais escuro de vermelho) mas sem sucesso.
— Você está fazendo errado.
Reclamou.
— Tu sabe fazer?
Ele aproximou-se de mim e fez um curativo muito bom com gaze e esparadrapo. Mantendo o rosto firme e os braços e mãos também.
— Como sabes fazer isso?
Questionei com minha a expressão de desconfiança clássica.
— Treinamento pra bombeiro e escola militar
—quem é… Qual teu nome?
— Júlio
— obrigada pelo curativo…
— Não foi nada..
— E agora? O que fazemos?
Júlio levantou os olhos, ajeitou os cabelos escuros com alguns fios grisalhos e respondeu:
— Eu não tenho ideia… Talvez andar pelo shopping… Mas isso tudo não é…
—Não é o que?
Perguntei após ele ter feito um rosto estranho
— Empolgante?
—Empolgante? Quer dar uma de modelo agora? Sorrindo totalmente sozinho?
Perguntei temendo sua resposta
— Temos o shopping inteiro para nós
— Acho que isso é só a adrenalina subindo pra tua cabeça.
Ele me estendeu a mão me ajudando a levantar. Mancando, apenas comecei a andar e ir até a primeira loja de roupa que apareceu na minha frente. Júlio ficou gritando perguntando aonde eu ia. Ele disse que podíamos andar pelo shopping, é o que estou fazendo. Encontrei a porta de saída de emergência: levava ao mesmo lugar. Outra: o mesmo lugar. A escada rolante não fazia nada. As outras 5 saídas de emergência que eu tentei ir: todas para o mesmo lugar. Fiz todo esse percurso correndo e quando eu terminei a última porta eu grunhi irritado para em sequência gritar de dor.
Eu tinha corrido e forçado o joelho machucado no processo.
Júlio suspirou desapontado, o que me irritou. Antes, porém, de eu dizer qualquer coisa, despenquei no chão em agonia.
Júlio deu seu ombro para eu me apoiar e praticamente me carregou até o supermercado do shopping.
Na adrenalina, não percebi a dor e o corte abrindo enquanto corria.
Me colocou sob um caixa do mercado, nós pegamos um pirulito de chupeta apoiados ali perto. Senti-me envergonhado por ser impulsivo e ignorar os gritos de um bombeiro em treinamento. Ficamos ali parados por um tempo, não sei como é que ele consegue achar isso empolgante. É assustador estar preso dentro de um shopping e não consegue sair de jeito nenhum e o tempo parece ficar parado.
O sol não se pôs mas as luzes algumas se apagaram, é certo que eu sempre quis ficar sozinho no shopping. Imagina imenso, sombrio, seria divertido fazer o que quiser . Sozinho sem ninguém para te perseguir ou te pegar fazendo algo errado ou implicando com você. Júlio, apesar de ter esse pensamento estranho, tem um bom ponto. Eu e ele, para esquecermos o horror que está acontecendo aqui, batemos um papo. Notei hematomas no pescoço dele, perguntei e ele desconversou, falei sobre a saudade da minha mãe e ele de como ele foge da mãe dele sendo bombeiro. Me deu uma bronca pelo joelho e senti algo como um forte laço vindo dele. Comemos os doces e a ansiedade que Júlio havia tirado de mim, voltou forte como um tiro, já que, pelo visto, não estávamos sozinhos naquele supermercado.
Algumas luzes estavam apagadas, lembra? Pois no fim do corredor uma embalagem de algum produto caiu e eu pude ver um par de olhos me encarando em meio a escuridão.
Apenas gelei por alguns segundos e quando a ficha caiu.
Chamei o nome de Júlio totalmente apavorado para nós corrermos . A criatura era como um humano, porém não material, totalmente negro, saiu correndo em direção a mim, não fazendo barulho algum, apenas sendo ligeiro. Júlio me carregou tentando fugir pela porta que agora estava trancada, então se virou enquanto a criatura quebrava o vidro da porta que ele tentara abrir. Foi até o fim daquele mercado comigo em seus braços e despistou a coisa entre as prateleiras, como se fossem escudos.
Nessa pressa, nós vimos… Vimos o amontoado de caixas de mercado e corpos de pessoas, dentre eles havia um vivo: Savannah. Tirei-me dos braços de Júlio ficando em pé e chamei a minha amiga em um sussurro. A mesma com olhos marejados olhou pra mim mas não moveu um músculo, de tão apavorada que estava.
Chamei-a mais uma vez, e quando ela se levantou para ir até nós num silêncio ensurdecedor tentando não chamar a atenção da coisa, escorregou nas caixas que estavam no chão e caiu.
Tudo parecia em câmera lenta quando vi aquela coisa agarrar Savannah pelos ombros e tirar algo de dentro dela, Júlio me segurou por trás para o mesmo não acontecer com a gente. Quando me dei conta, a criatura havia fugido como se estivesse saciada. Savannah se levantou e saiu andando como se nada tivesse ocorrido. Agarrei seu ombros e perguntei como ela estava, ela não respondia. Fria, sem expressão e vagava sem rumo pelo shopping.
Lembro de tê- lá ouvido gritar e agora ela parece vazia, sem alma. Se Savannah não está morta com aquela criatura, quem matou os corpos que estavam lá? Totalmente dilacerados como se algo pontudo tivesse beliscado eles. Eu não queria descobrir. Enquanto eu seguia minha colega de quarto para fora daquele mercado, pude ver… Pude ver uma porta de saída entreaberta. Sabia que ela não seria um looping, pois dela saia uma luz vermelha. Estou a horas aqui, essa era minha última esperança. Eu agarrei o pulso de Savannah e disse para ela ficar parada ali.
Ela nem sequer levantou os olhos pra mim, mas ficou lá. A dor do joelho já havia passado, mas ainda mancando, eu abri aquela porta e fui junto com Júlio.
Havia uma luz vermelha e um corredor infinito.
Pensei em voltar do lugar, mas só tínhamos a opção de continuar, e a porta atrás de nós tinha sumido quando entramos, deixando apenas mais um corredor infinito atrás de nós. Eu não me toquei, mas estava totalmente sozinho há horas com um desconhecido em um local totalmente desconexo da realidade. Digo isso agora, porque naquele corredor pudemos ver algo fazendo um barulho muito alto e era possível ouvir os passos pesados e rápidos até nós.
Júlio simplesmente foi louco o suficiente para, depois de correr pelo corredor de luz vermelha, ir em direção ao ser, que mais parecia uma pessoa fantasiada de pássaro. As penas eram um degradê de branco a um azul marinho, e chocou o próprio corpo contra o dele. Ele parecia totalmente indiferente com isso. Depois se chocou contra a parede me puxando junto. A parede se abriu em uma porta como um corte de filme. Júlio havia quebrado seu braço no processo, mas parecia acostumado. Discuti com ele ao invés de agradecer por conta da adrenalina e a paciência dele havia acabado.
— Não venha tirar satisfação comigo por droga de motivo nenhum, é por minha causa que a gente saiu.
Continua em Não saiam a noite — o ATO FINAL…
Por:
Minna Carneiro
Amante de literatura e RPG ( mais os que valorizam interpretação e fantasia), grande interesse em horror e mistério. Artista em muitas categorias.
Até breve. Ah, e é claro, hora do jabá: vem conhecer a loja on LINE da Nozes! Clica em Nozes Game Studio!
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